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(UNIFESP - 2021) - QUESTÕES

Leia o conto de Carlos Drummond de Andrade para responder às questões de 01 a 03.

O entendimento dos contos

— Agora você vai me contar uma história de amor — disse o rapaz à moça. — Quero ouvir uma história de amor em que entrem caravelas, pedras preciosas e satélites artificiais. 
— Pois não — respondeu a moça, que acabara de concluir o mestrado de contador de histórias, e estava com a imaginação na ponta da língua. — Era uma vez um país onde só havia água, eram águas e mais águas, e o governo como tudo mais se fazia em embarcações atracadas ou em movimento, conforme o tempo. Osmundo mantinha uma grande indústria de barcos, mas não era feliz, porque Sertória, objeto dos seus sonhos, se recusava a casar com ele. Osmundo ofereceu-lhe um belo navio embandeirado, que ela recusou. Só aceitaria uma frota de dez caravelas, para si e para seus familiares.
Ora, ninguém sabia fazer caravelas, era um tipo de embarcação há muito fora de uso. Osmundo apresentou um mau produto, que Sertória não aceitou, enumerando os defeitos, a começar pelas velas latinas, que de latinas não tinham um centavo. Osmundo, desesperado, pensou em afogar-se, o que fez sem êxito, pois desceu no fundo das águas e lá encontrou um cofre cheio de esmeraldas, topázios, rubis, diamantes e o mais que você imagina. Voltou à tona para oferecê-lo à rígida Sertória, que virou o rosto. Nada a fazer, pensou Osmundo; vou transformarme em satélite artificial. Mas os satélites artificiais ainda não tinham sido inventados. Continuou humilde satélite de Sertória, que ultimamente passeava de uma lancha para outra, levando-o preso a um cordão de seda, com a inscrição “Amor imortal”. Acabou.
— Mas que significa isso? — perguntou o moço, insatisfeito.
— Não entendi nada.
— Nem eu — respondeu a moça —, mas os contos devem ser contados, e não entendidos; exatamente como a vida.

(Contos plausíveis, 2012.)

01. QUESTÃO - No texto, a moça 
a) finge não entender o próprio conto para perturbar o rapaz. 
b) sugere que a vida, como a maioria dos contos, dificilmente termina bem. 
c) sugere que dificilmente o sentido da vida possa caber em um conto. 
d) acredita que a vida precisa ser decifrada, como a maioria dos contos. 
e) acredita que os contos, como a vida, prescindem de explicação.

02. QUESTÃO - Em sua história, a moça incorre em contradição ao tratar
a) das caravelas.
b) da recusa de Sertória em se casar.
c) da tentativa de suicídio de Osmundo.
d) dos satélites artificiais.
e) das pedras preciosas.

03. QUESTÃO - O título do conto antecipa seu caráter
a) melancólico.
b) fantástico.
c) ambíguo.
d) satírico.
e) metalinguístico.




01. QUESTÃO - E
No texto “O entendimento dos contos”, há dois planos narrativos: um, da moça que conta uma história ao rapaz, e o outro, da história contada, em que figuram Osmundo e Sertória, personagens do conto. “A moça do primeiro plano”, mestre em contar histórias, ao terminar sua narração, explica que “os contos devem ser contados, e não entendidos; exatamente como a vida.” Dessa forma, na visão da moça, os contos devem prescindir de explicação.

02. QUESTÃO - D
No conto, a narradora identificada apenas como “a moça” conta ao seu interlocutor, “o moço”, uma história sobre como Osmundo tentou agradar sem sucesso Sertória, com quem desejava casar-se. Após várias tentativas malsucedidas, ele decide transformar-se em “satélite artificial”. No entanto, a narradora afirma que estes “ainda não haviam sido inventados”.

03. QUESTÃO - E
A metalinguagem é a linguagem que descreve sobre ela mesma. Ou seja, ela utiliza o próprio código para explicá-lo. Assim, o título “O entendimento dos contos” antecipa tal caráter, já que ele contém menção ao gênero do texto de Drummond (o conto).

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